O Projeto MKUltra, conduzido pela CIA entre o início dos anos 1950 e 1973, é um dos episódios mais obscuros da história moderna. Envolvido em sigilo, experimentação antiética e manipulação psicológica, o programa buscava desenvolver técnicas de controle mental com potencial uso militar. Décadas mais tarde, esse capítulo real inspiraria inúmeras obras de ficção, e nenhuma delas ganhou tanta popularidade quanto Stranger Things, série da Netflix que, embora envolva monstros de outra dimensão, fundamenta parte de sua narrativa justamente nos abusos e experimentos associados ao MKUltra. A junção entre história e ficção cria uma obra que ecoa traumas reais enquanto expande seus limites para o sobrenatural.
Para compreender essa relação, é preciso observar o clima paranoico da Guerra Fria, que motivou a criação do MKUltra. O temor de que soviéticos e chineses estivessem utilizando “lavagem cerebral” em prisioneiros americanos fez com que a CIA buscasse desenvolver suas próprias técnicas de manipulação mental. O diretor Allen Dulles aprovou o projeto em 1953, entregando sua coordenação ao químico Sidney Gottlieb. A partir daí, uma série de experimentos, muitos deles ilegais, começaram a ocorrer em universidades, hospitais e centros psiquiátricos. Drogas como LSD, mescalina e estimulantes foram administradas, por vezes sem consentimento, com o objetivo de alterar comportamentos, induzir confissões e testar limites da consciência humana.
A série Stranger Things absorve essa atmosfera de paranoia e segredo estatal. Na trama, o laboratório de Hawkins funciona como um espelho ficcional dos laboratórios reais envolvidos no MKUltra. A personagem Eleven, interpretada por Millie Bobby Brown, é resultado de experimentos psicológicos conduzidos em sua mãe; testes que envolvem drogas psicodélicas, privação sensorial e manipulação da mente, exatamente como documentado no MKUltra. Na série, esses experimentos acabam desbloqueando habilidades telecinéticas e permitindo acesso ao “Mundo Invertido”, um plano paralelo. No mundo real, evidentemente, não havia monstros ou poderes sobrenaturais, mas as bases conceituais, experimentação involuntária, uso de LSD, isolamento extremo, são profundamente inspiradas no projeto histórico.
Um dos aspectos mais notórios do MKUltra, e que encontra eco direto em Stranger Things, é o uso de privação sensorial e câmaras de isolamento. No projeto real, indivíduos eram colocados em ambientes com ausência quase completa de estímulos, recebiam drogas e eram submetidos a hipnose. Na série, Eleven entra em uma câmara improvisada, uma piscina infantil com água salgada; onde, sob privação dos sentidos, acessa memórias e até seres de outra dimensão. A estética da cena remete diretamente às fotografias e descrições das experiências reais, ainda que elevadas ao fantástico.
Para além da estética, a série faz referência explícita ao MKUltra no enredo: a mãe de Eleven, Terry Ives, participa, nos anos 1960, de experimentos com LSD promovidos pelo governo, assim como ocorreu no projeto real. Na narrativa da série, esses experimentos resultam em telecinese e capacidades psíquicas, mas a estrutura da história se apoia nas denúncias divulgadas na década de 1970, quando o Comitê Church investigou a CIA e revelou partes do programa secreto. Assim como na vida real, a série é marcada por documentos destruídos, manipulação estatal e vítimas que lutam para recuperar sua memória e identidade.
Embora Stranger Things amplie o MKUltra para o paranormal, a crítica política subjacente é semelhante: tanto na ficção quanto na realidade, a busca por poder científico e militar leva instituições governamentais a ultrapassarem limites éticos. No MKUltra verdadeiro, vítimas sofreram danos psicológicos irreversíveis. No universo da série, Eleven é a personificação desse sofrimento, criada em um ambiente de testes, manipulada emocionalmente e privada de sua infância. A figura do “Dr. Brenner”, que supervisiona os experimentos, representa o arquétipo do cientista que, em nome do progresso militar, sacrifica vidas humanas, uma crítica claramente inspirada em Sidney Gottlieb e em outros cientistas envolvidos no programa real.
Outro aspecto que aproxima realidade e ficção é o uso de pessoas vulneráveis. No MKUltra, prisioneiros, pacientes psiquiátricos, dependentes químicos e pessoas marginalizadas eram frequentemente selecionados como cobaias, muitas vezes sem consentimento. Em Stranger Things, crianças sequestradas ou nascidas em cativeiro são moldadas como armas humanas. Assim, a série potencializa a verdade histórica para denunciar sua gravidade: se o governo foi capaz de usar LSD sem autorização em cidadãos comuns, o que mais seria capaz de fazer?
Apesar das diferenças óbvias, não existem dimensões paralelas ou criaturas como o Demogorgon, há uma linha contínua que liga Stranger Things ao MKUltra: a ideia de que o Estado, motivado pelo medo e pela competição militar, pode transformar ciência em instrumento de opressão. A destruição de documentos do MKUltra em 1973 e o sigilo institucional envolvido ecoam na maneira como o laboratório de Hawkins opera, sempre encobrindo falhas e criando narrativas alternativas para ocultar seus crimes.
Em síntese, relacionar o MKUltra com Stranger Things não significa confundir realidade e ficção, mas mostrar como a série utilizou elementos reais para construir uma atmosfera imersiva e crítica. O MKUltra, com seus abusos e violações éticas, oferece um pano de fundo histórico que torna a série mais rica, mais sombria e mais plausível, não por seus monstros, mas por sua denúncia da manipulação estatal. Assim, Stranger Things funciona não apenas como entretenimento, mas como um espelho distorcido de um passado igualmente perturbador.
